Tristes trópicos

Essa série de fotografias descreve diferentes momentos da política brasileira, desde o impeachment de Dilma Rousseff em abril de 2016 até a condenação de Lula em julho de 2017. Inclusive, resolvi utilizar o título do famoso livro de Claude Lévi-Strauss, notável filósofo e antropólogo francês, em homenagem a sua obra que relata a sua estada no Brasil entre 1935 e 1939. Para situar o contexto desta foto-reportagem e compreender melhor a situação atual do Brasil, convido vocês leitores para uma breve retrospectiva de fatos marcantes que antecederam a destituição da presidente Dilma Rousseff:

Outubro de 2010

A sucessora do ex-presidente Luiz Inácio Lula (PT, esquerda), Dilma Rousseff é eleita Presidente da República. Ela é reeleita no segundo turno que disputava contra Aécio Neves (PSDB, direita) em outubro 2014.

Março de 2014

A investigação “lava jato” revela um amplo sistema de corrupção ligado a indústria petroleira dentro do grupo estatal Petrobras. As empreiteiras, atuantes do setor da construção civil, formavam um cartel, e repartiam entre si os contratos públicos, superfaturando os orçamentos de seus serviços prestados ao governo. Em troca, propinas eram pagas aos diferentes partidos políticos, principalmente aos da coligação governamental, no poder desde a presidência de Lula em 2003. Dilma não foi mencionada pela justiça neste processo, mas uma grande parte da opinião pública a considerou responsável pelo ocorrido, pois ela havia exercido o cargo de ministra das Minas e Energia (A Petrobras é uma das empresas vinculadas a esse ministério) durante esse período, entre 2003 e 2005.

Dezembro de 2015

Dilma Rousseff é acusada de “pedaladas fiscais”. Eduardo Cunha (PMDB, direita), então presidente da câmara dos deputados, inicia o procedimento de impeachment contra a presidenta. Segundo a oposição, ela conscientemente maquiou as contas públicas, para minimizar o déficit fiscal no país, e obter melhores resultados durante as eleições de 2014. A prática das pedaladas fiscais, considerada como crime de responsabilidade na constituição brasileira, consiste em um empréstimo junto aos bancos (públicos e privados) financiadores de despesas do governo, com o objetivo de regularizar as contas do Estado e adiar o repasse de dinheiro. Esse tipo de manobra foi usado desde 1994 por diferentes governos que estiveram no poder, porém o impacto desse montante nas dívidas públicas correspondia a 0,11% do PIB em 2001 e passou a 1% em 2014.

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2016

4 de março: O domicílio de Lula foi revistado e o ex-presidente foi levado pela Polícia Militar para depor, durante três horas, sobre os bens que estavam em sua custódia, por ordem do juiz Sérgio Moro. No dia 11 de março, a procuradoria de São Paulo exigiu a detenção de Luiz Inácio Lula da Silva.

13 de março: Manifestação a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

17 de março: Dilma Rousseff nomeia Lula como ministro Chefe da Casa Civil para, segundo ela, ajudá-la a salvar o seu mandato. Para os seus detratores, se trata de evitar a prisão de Lula. A justiça anularia por sua vez, na hora, a sua nomeação. Naquela mesma noite, o juiz Sérgio Moro divulgou grampos telefônicos entre Dilma e Lula que nos levariam a pensar que a presidenta o havia nomeado com o intuito de burlar a justiça para protegê-lo.

20 de março: Manifestação em apoio a Dilma Rousseff. Segundo os protestadores, trata-se de um golpe orquestrado pela oposição.

17 de abril: Os deputados votam a favor da abertura do procedimento de impeachment.

5 de maio: Eduardo Cunha, o instigador do impeachment, foi condenado a 15 anos de prisão no caso da lava jato.

11 de maio: Os senadores aprovam o procedimento de impeachment de Dilma Rousseff. A presidenta é afastada do poder durante 180 dias, até o julgamento final.

5 de agosto: Abertura dos jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

31 de agosto: Os senadores aprovam definitivamente a destituição de Dilma Rousseff. Michel Temer, sendo seu vice-presidente, a sucederá.

1ro de setembro: Diversos movimentos sociais acontecem durante vários dias contra a entrada de Michel Temer no poder.

14 de setembro: A procuradoria geral pede a condenação de Lula; o procurador Deltan Dallagnol alega que o ex-presidente é o “comandante máximo” do esquema de corrupção envolvendo a empresa Petrobras.

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Fotografia publicada no livro “O melhor do fotojornalismo brasileiro 2017”, edição Europa. Uma manifestante grita a sua raiva, durante a abertura do procedimento de impeachment de Dilma Rousseff em abril de 2016, no vale do Anhangabaú, em São Paulo.

2017

Fevereiro: O carnaval abre o ano com os blocos “Fora Temer”.

Abril: Greve geral dos sindicalistas contra as reformas, do congelamento de gastos públicos durante 20 anos, a trabalhista e da previdência.

10 de julho: Michel Temer é acusado de corrupção no caso da lava jato, segundo as delações dos empresários da multinacional JBS junto a justiça federal. Joesley Batista, dono desta última, o acusa de ser “o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”.

1ro de julho: Sérgio Moro condena Lula a 9 anos e alguns meses de cadeia no âmbito da lava jato, no caso do triplex do Guarujá. Por decisão do juiz, Lula poderá aguardar em liberdade a sentença do tribunal de segunda instância.

2 de agosto: A câmara dos deputados rejeita a abertura de processo contra Michel Temer, em troca de favores ligados ao lobismo da indústria e do agronegócio.

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O dia do voto dos deputados, cujo o qual eles aprovaram a abertura do processo de impeachment de Dilma Roussef. Em segundo plano, uma caricatura da presidenta sentada em um vaso sanitário, pronta para ir embora com sua mala e sua trouxa de roupas.

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Um vendedor ambulante durante uma manifestação contra o Partido dos Trabalhadores e seus mentores, Lula e Dilma. Bonecos infláveis de Lula com roupa de presidiário são vendidos na avenida Paulista, em São Paulo.

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Integrantes de um grupo que manifestava a favor de Dilma Rousseff em São Paulo. Cartaz: “Dilma, sua base aliada é o povo!”.

Manifestantes durante a votação dos deputados para a abertura do processo de impeachment.

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Um vendedor de côcos na avenida Paulista, no dia de um protesto que apoiava Dilma Rousseff. Cartaz: “Não vai ter golpe, vai ter côco”.

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Durante a manifestação contra Dilma Rousseff, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) colocou um pato gigante na frente de suas instalações em forma de protesto contra a intenção do governo de aumentar os impostos. Por isso o uso da expressão neste caso:“Não vou pagar o pato”.

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Um membro da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no vale do Anhangabaú, centro histórico de São Paulo, decepcionado com a decisão dos deputados em relação a abertura do processo de destituição da presidenta.

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Uma Manifestante durante um protesto contra Dilma Roussef em São Paulo. Cartaz diz: “Lula, ministro do caralho”.

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Manifestantes instalados no vale do Anhangabaú, durante a votação dos deputados para a abertura do processo de afastamento da presidente.

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Uma senhora rezando na avenida Paulista, em São Paulo, no dia da destituição de Dilma Roussef.

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Manifestação de um movimento feminista a favor da permanência de Dilma Roussef no poder. Uma das militantes segura uma fotografia da presidente quando ela havia sido presa na época da ditadura. O cartaz diz: “Mais Dilma, menos machismo”.

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Um manifestante apoiando a saída de Dilma Rousseff ao lado da Fiesp em São Paulo, no dia da votação dos senadores. Em sua camiseta está escrito: “Intervenção militar já!”.

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Um manifestante fazendo parte do grupo reunido em oposição ao processo de afastamento de Dilma. O cartaz diz: “Globo, Moro, enfrentem Lula nas urnas”.

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Um manifestante a favor do impeachment folheando a constituição brasileira, no dia da votação dos senadores que confirmaram a destituição definitiva de Dilma Rousseff.

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Na noite dos votos dos senadores, vemos o clima pesado que pairava no ar entre os manifestantes que estavam na avenida Paulista. Um jovem foi detido ao se interpor entre policiais e um morador de rua. Este último, estava bêbado e não parava de insultar as forças da polícia, que decidiram retorquir as investidas de seu agressor cambaleante de maneira mais enérgica.

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No dia posterior a tomada de posse de Michel Temer, as manifestações se multiplicaram em todo o país a favor da democracia. O cartaz diz: “Lutar sempre, Temer jamais”.

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Manifestação na avenida Paulista, perto do Masp (Museu de Arte de São Paulo), contra o presidente Michel Temer. O cartaz diz: “Respeite o meu voto porra!”.

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Alguns dias depois da posse de Michel Temer, manifestações pacíficas foram brutalmente reprimidas pela Polícia Militar. Na foto, policiais dispersam os manifestantes através de bombas de fragmentação.

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O centro de São Paulo se torna palco de conflitos entre manifestantes e a Polícia Militar. Moradores assistem as cenas de guerra por detrás de suas janelas.

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Os brasileiros invadem as ruas novamente. “Povo sem medo” – é um movimento popular que nasceu durante o processo de impeachment; O cartaz diz: “Fora Temer!”.

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Durante os jogos olímpicos do Rio de Janeiro, muitas manifestações se espalharam por todo o país no intuito de sensibilizar a opinião mundial sobre os acontecimentos políticos que ocorriam no Brasil. O cartaz em inglês diz: “Fora Temer, não vai ter golpe no Brasil”.

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Todas as unidades da Funarte (Fundação Nacional de Artes) foram ocupadas em todo o Brasil durante vários meses em protesto ao afastamento de Dilma Rousseff. Uma ativista organiza a agenda de eventos da Funarte em São Paulo durante a ocupação.

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Participantes da Parada do Orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais) em São Paulo. No cartaz está escrito: “Amar sem Temer”.

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Blocos de rua chamados “Fora Temer” desfilaram nas ruas durante o carnaval de 2017. Na foto, foliões pulam o carnaval do Rio de Janeiro de calcinha e sutiã.

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No mesmo tempo em que o juiz Sergio moro condena lula a 10 anos de cadeia, militantes se reúnem em São Paulo para apoiar o ex-presidente.

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Do outro lado da avenida Paulista, brasileiros celebram a condenação de Lula. Na foto, uma manifestante fazendo o famoso “panelaço” que se popularizou em todo o país pois era usado a cada pronunciamento de Dilma Rousseff em rede nacional. Está escrito na camiseta: “Eu sou Lava Jato e juiz”

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Quando os deputados rejeitaram a abertura do processo por corrupção contra Michel Temer, um número pequeno de anarquistas foram as ruas protestar. Os outros movimentos, que também têm o hábito de se manifestar, erguendo diferentes bandeiras, desta vez, ficaram em silêncio.

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E agora? Qual será o rumo do Brasil?

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